- Desviei de novo
domingo, 10 de agosto de 2008
Eu entendo, mas não sei o que fazer diante disso, então eu prometo que vou te ouvir só pra te confortar, certo? Eu vou deixar você falar, vou procurar saber o que uma pessoa comum faria e vou tentar fazer o mesmo, tudo bem? Agora pare de chorar que eu vou procurar essa pessoa./Não se preocupe, a menos que seja frágil demais pra conversar sobre esse assunto./Eu não consigo colocar essa harmonia poética... por mais que eu tente, só me passam idéias vagas, filtradas apenas. Nada que realmente tenha valor emocional ao ser escrito. É como se tudo fosse muito objetivo, sem ilustrações, sem vida até.Tenho 17 anos, sou nova e impressiono-me ao ler o que outras pessoas mais novas que eu escrevem, o brilhantismo com que escrevem. Notadamente a minha capacidade de imaginação não passa de pouca coisa quando se trata de escritura, porém tenho uma garantia. É fato que gero certo espanto quando vêem meus desenhos. São reflexo da minha alma, Machado de Assis iniciou o Realismo no Brasil e uma de suas características era a análise da alma humana; ele fez com que os personagens passassem a ser vistos como esféricas, mutáveis, o que não era visto no Romantismo. Nesse momento os leitores do Brasil ficam chocados. Os meus desenhos mostram quem sou eu de uma maneira muito subjetiva. Enquanto os faço sei o que estou sentindo, mas o que os outros estariam pensando? Quando esses desenhos ficam guardados por muito tempo eu os vejo e não consigo entender o motivo de ter desenhado tal coisa ou o que estava sentindo naquele momento, provando minha flexibilidade, assim como os personagens de Machado. Eu penso muito, mas por algum tempo estive desgastando minha cabeça com coisas fúteis. Já tive, nesses poucos anos de vida, momentos de maior criatividade e imaginação, inclusive agi de maneira mais madura. Esse foi o período em que eu não fui nada pra ninguém, foi o momento em que eu não tive vida social ativa, assim pude tirar meu tempo pra me conhecer mais profundamente e pensar mais antes de tomar qualquer atitude e até mesmo estudar mais, me concentrar em atividades importantes.Antes tinha comportamentos compulsivos, manias e vontades demais, tinha medo das pessoas, sentia frios na barriga ao pensar em ver de perto alguém que eu não tivesse muito contato, não me comunicava e era extremamente agressiva. Sempre sonhava demais e não confiava nas pessoas, a maioria delas me intimidava e eu me sentia muito pequena em relação à elas. Essa desconfiança era passada ate mesmo para os meus psicólogos, não creio que percebessem isso, eu dava um jeito de desviar a realidade. Tudo o que me perguntavam me fazia crer que estavam apenas fazendo um teste ou então que poderíam usar aquilo contra mim em algum momento. Fiz isso desde quando comecei a frequentar a clínica, desde os 8 anos de idade. Permaneci com esse tratamento durante anos, até os 15. Durante esse período passei por três psicólogos diferentes, até chegar o momento em que me aconselharam uma neuropsicóloga. Fiz neuro-avaliações e de acordo com o laudo eu deveria começar um tratamento com medicamentos, detestei completamente essa idéia.Ainda não acredito que eu tenha o problema que ela constatou, creio que seja alguma outra coisa, mas não isso. Após 3 meses de tratamento fui indicada à um psiquiatra. Ele leu o meu laudo, disse que eu deveria continuar o tratamento, mas que não podería fazer nada a respeito a não ser me passar o mesmo medicamento. Pediu que eu fosse consultada por outra psiquiatra, ela me parecia um pouco estranha no início e foi apenas isso o que teve: início. Depois disso eu não a vi mais, nenhum dos seis, nem os psicólogos, neuropsicóloga nem os psiquiatras. Decidi parar de tomar os remédios. Meu pai acusa a minha agressividade por conta de eu não tomar os remédios, ele se engana, pois, mesmo durante o tratamento, eu permaneci assim. Eu me recuso a continuar, apesar de não poder fazer isso. Mas no fundo eu sei que não é disso o que preciso.